Projeto design de embalagem sucos Campo Largo.

Design de Embalagem: Estratégia no PDV

Como o design de embalagem pode gerar destaque no ponto de venda e sintetizar marca, valor e diferenciação para impactar na decisão de compra

Você tem até sete segundos para causar uma boa primeira impressão, de acordo com um conceito já popular no marketing – mas pode ser ainda menos, como mostrou um estudo da Universidade de Princeton. Em uma gôndola repleta de mercadorias ou um e-commerce com centenas de itens, isso é particularmente desafiador.

Destacar-se no varejo vai além de uma aparência atraente. Exige planejamento estratégico, engenharia e design para que a embalagem comunique rapidamente função, propósito e identidade de marca, além de influenciar a percepção de valor. Por isso, a embalagem é um fator estratégico — e decisivo.

A embalagem também é decisiva no Zero Moment of Truth (ZMOT), conceito popularizado pelo Google em 2011, que descreve o momento em que o consumidor decide se um produto merece atenção — seja em uma busca online, em avaliações ou nas redes sociais. Nesse instante, a embalagem precisa sintetizar marca, valor e diferenciação de forma imediata. O design de embalagem, portanto, pode determinar quem vende e quem fica esquecido na prateleira.

Projeto design de embalagem Be Good Superfoods.

A pesquisa feita pela Ipsos* nos Estados Unidos revelou que para 72% dos entrevistados a embalagem influencia na compra. Se o produto for para presente, o peso é ainda maior: oito em cada dez escolhas são influenciadas por esse fator.

A embalagem não influencia apenas a decisão de compra: ela impacta toda a cadeia produtiva e de negócios. Um projeto mal elaborado pode comprometer a usabilidade, reduzir a recorrência de compra, gerar ineficiências logísticas, elevar custos e dificultar a comunicação clara dos benefícios do produto — prejudicando seu desempenho no mercado.

Por isso, tratamos o design de embalagem como uma disciplina central e estratégica. Embalagem é forma, ergonomia, grafismo, engenharia e narrativa. Nossa abordagem integra marca, produto, experiência e negócio, garantindo que cada decisão, gráfica ou estrutural, tenha intenção, coerência e impacto mensurável.

E essa abordagem já foi reconhecida por importantes premiações nacionais e internacionais de design de embalagem, como WPO, BDA, Bornancini, ABRE e POPAI.

Projeto design de embalagem Botica 214, o Boticário..

Mas, afinal, o que envolve o packaging design?

O design de embalagem resulta da integração entre design de produto e design gráfico. O design de produto diz respeito à forma física da embalagem — frasco, recipiente ou caixa — e envolve aspectos como ergonomia, textura e usabilidade. É a experiência concreta de uso, que amplia o valor percebido e reforça a promessa da marca. Já o design gráfico é responsável por traduzir mensagens e valores por meio do rótulo, da tipografia, das informações e da identidade visual.

Uma embalagem eficiente precisa comunicar quatro pontos essenciais. O primeiro é o posicionamento e a identidade da marca. Cores, grafismos, materiais e estrutura visual revelam a personalidade do produto e influenciam diretamente sua percepção de qualidade. O reconhecimento imediato é decisivo em um mercado saturado, onde muitos produtos acabam se parecendo entre si.

O segundo ponto está ligado à natureza do produto, seus benefícios e diferenciais. O rótulo deve apresentar de forma clara e hierarquizada informações como função, ingredientes, performance, propósito e dados técnicos. Quando o produto se explica por si, o esforço posterior de comunicação e marketing é significativamente reduzido.

Projeto design de embalagem Dr. Peanut Turma da Mônica.

O terceiro aspecto é a funcionalidade e a experiência de uso. Isso envolve avaliar se a embalagem é prática, fácil de manusear, abrir e fechar, confortável ao toque e ergonomicamente adequada.
Por fim, um design bem construído cria conexão emocional com o consumidor, desperta sensações, gera memória e diferencia o produto do lugar comum.

Projeto design de embalagem Cuide-Se Bem Show de Banho, o Boticário.

A embalagem nos últimos anos e o que importa hoje

Na última década, a embalagem consolidou-se como um ativo estratégico de marca. Tornou-se um dos principais pontos de contato com o consumidor e, muitas vezes, o primeiro fator de decisão de compra. Mais do que estética, as marcas passaram a buscar posicionamento, diferenciação e narrativa aplicados de forma consistente.

Nesse contexto, design gráfico e design de produto — antes tratados de forma isolada — passaram a atuar de maneira integrada. Forma, função e grafismo são concebidos simultaneamente durante o projeto, considerando não apenas o ponto de venda físico, mas também como o produto será apresentado no ambiente digital.

A experiência virtual trouxe um paradoxo importante. Se, por um lado, a embalagem precisa funcionar como imagem — impactando em fotografias e vídeos vistos em telas pequenas —, por outro, no mundo físico ela precisa entregar experiência, considerando textura, formato, ergonomia e interação com o usuário.

Nos últimos anos, outro fator ganhou relevância: o unboxing. Influenciadores e consumidores passaram a avaliar publicamente a experiência de desembalar um produto. Por isso, projetos de embalagem orientados por estratégia precisam considerar desde o início como o produto se comporta nesse momento de revelação e como ele se apresenta diante das câmeras.

Projeto design de embalagem dia dos namorados, o Boticário.

A escolha de materiais também passa a ter peso maior. O consumidor exige transparência, informações claras sobre ingredientes, processos e diferenciais reais. Esse novo comportamento impacta a hierarquização dos elementos da embalagem, tornando clareza visual e informacional tão importantes quanto a estética.

Além disso, cresce a expectativa por posicionamento social e responsabilidade cultural das marcas. A embalagem assume, cada vez mais, um papel simbólico: pode comunicar valores, apoiar causas e provocar conversas relevantes — desde que haja coerência com a essência da marca.

Ao mesmo tempo, o mercado tornou-se ainda mais competitivo, com produtos oferecendo benefícios semelhantes, especialmente nos setores de beleza, alimentos e fitness. Quando orientadas apenas por tendências, as marcas correm o risco da saturação visual. Por isso, construir um território proprietário tornou-se fundamental para estabelecer identidade, expressar personalidade e garantir diferenciação consistente.

Projeto design de embalagem cervejas artesanais Ignorus Cervejaria.

Como a MAD trabalha? Conheça três cases de sucesso

A MAD inicia seus projetos a partir de um diagnóstico aprofundado de marca, categoria e comportamento de compra. Antes de qualquer definição gráfica ou estrutural, são analisados o produto e/ou a empresa, o posicionamento, o consumidor e os objetivos de negócio. Esse entendimento orienta decisões como arquitetura de linha, hierarquia de informações, paleta de cores, discurso visual (semiótica) e escolhas técnicas de impressão.

No projeto desenvolvido para a linha de nutracêuticos da União Vegetal, a clareza do resultado foi consequência de um processo conduzido pela estratégia, e não apenas pela estética. A marca precisava se diferenciar em uma categoria marcada por soluções visuais muito semelhantes, além de alinhar sua linguagem verbal e visual ao mercado contemporâneo de bem-estar. Havia também o desafio de comunicar autenticidade, valor nutricional e cuidado com ingredientes naturais de forma direta e confiável.

A partir da imersão estratégica, foi definido um sistema visual que equilibra rusticidade e contemporaneidade, conectando alimentação saudável, simplicidade e tradição — atributos relevantes para a marca. Esse território visual foi construído com ilustrações de ingredientes, novo logotipo de formas leves e orgânicas, tipografia exclusiva e uma combinação equilibrada de tons vibrantes e suaves, garantindo diferenciação no ponto de venda. O layout priorizou a hierarquização clara das informações, destacando benefícios e atributos de saúde com uma estética limpa, afastando-se dos clichês do segmento.

O resultado é uma linha coerente e consistente, capaz de traduzir o posicionamento da marca e performar tanto na gôndola quanto nos ambientes digitais.

No caso do Floratta Rose Bouquet, desenvolvido para O Boticário, o desafio foi equilibrar herança e renovação em uma linha com mais de 30 anos de mercado, promovendo maior integração entre design gráfico e design de produto. A essência romântica e sofisticada da Floratta precisava ser preservada, enquanto a linguagem visual demandava atualização para dialogar com um público contemporâneo.

O projeto envolveu o redesenho do frasco e da tampa, considerando o alinhamento entre peso, grafismos e códigos da marca. A embalagem passou a apresentar curvas contínuas e linhas mais fluidas, reforçando a suavidade da fragrância, além de ganhos em ergonomia a partir de uma melhor distribuição de peso e maior integração sensorial entre forma, cor e acabamento.

No design gráfico, a abordagem foi a modernização do grafismo floral, com traços mais minimalistas e elegantes, além de uma seleção criteriosa de cores e contrastes aplicados com sutileza. O resultado mantém a coerência com a tradição da linha, ao mesmo tempo em que adiciona sofisticação e leveza. É um exemplo de como forma, função e grafismo podem evoluir de maneira integrada, sem romper vínculos simbólicos construídos ao longo do tempo.

A embalagem, afinal, é também um meio de comunicação, posicionamento e conexão emocional — não apenas um suporte físico. Essa dimensão fica evidente no projeto desenvolvido para a edição limitada “Não Me Kahlo!”, da Ignorus Cervejaria, em parceria com Jana Pinho. Nesse caso, a embalagem foi parte central da estratégia para comunicar e estimular o debate sobre a violência contra as mulheres.

O desafio consistiu em criar um rótulo visualmente impactante, capaz de sensibilizar e conscientizar ao mesmo tempo. A solução partiu da reinterpretação da imagem de Frida Kahlo em uma ilustração que representa a pluralidade feminina por meio de um mosaico de rostos e do uso expressivo da cor. A estratégia gráfica e textual é direta, incorporando informações do disque-denúncia e o convite explícito à denúncia. Aqui, a embalagem atua como mídia, manifesto e instrumento de engajamento social.

Em um mercado cada vez mais competitivo e saturado de estímulos, o design de embalagem deixou de ser um elemento puramente funcional e/ou estético para se consolidar como uma ferramenta estratégica de marca e negócio. Quando pensado de forma integrada — unindo produto, grafismo, experiência, narrativa e contexto cultural —, ele comunica valor, orienta escolhas, gera diferenciação e constrói conexão real com o consumidor. Mais do que proteger ou apresentar um produto, a embalagem define como a marca é percebida, lembrada e escolhida.

Josi Gwadera

Josieli Gwadera é Head de Embalagem na MAD Creative. Formada em Design de Produto pela Universidade Positivo, atua há mais de 15 anos transformando conceitos em embalagens que se destacam no ponto de venda. Com profundo domínio de produção, enxerga a embalagem como território estratégico onde criatividade, viabilidade e expressão caminham juntas.